sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Mais uma parada: desta vez, a 174.

As produções cinematográficas nacionais que trazem como temática central a violência urbana e o tráfico de drogas sempre despertam em mim o mesmo sentimento: revolta. Sim, os diretores alcançam o objetivo da produção do filme comigo que centra-se na exposição, na publicação (no sentido de tornar público) daquilo que, na verdade, o público já sabe: a dura realidade brasileira impulsionada pela desigualdade social.

Não precisamos assistir Cidade de Deus para compreender como as favelas no Brasil surgiram e como funcionam internamente. É desnecessário assistir Carandiru para ver como o sistema penitenciário brasileiro não recupera nenhum sujeito que ali é abandonado. Talvez ir ao cinema colaborar com o recorde de Tropa de Elite I e II também não seria preciso para nos revoltar com a corrupção da polícia e das falcatruas políticas. Tudo isso nos é narrado diariamente, basta ligar sua televisão e sintonizar nos programas tele jornalísticos que tem aprimorado a maneira de transmitir os fatos nacionais e internacionais.

No entanto, o filme Parada 174 exibido pela Rede Globo nessa noite, 07 de janeiro de 2011, incitou em mim uma reflexão diferente. Eu não sei afirmar se as histórias dos personagens principais, Sandro e Alessandro, são realmente verídicas, exceto o fato do seqüestro do ônibus que o Brasil inteiro acompanhou quando aconteceu. Mas acredito que esse filme nos conta as possíveis histórias de muitos “Sandros” e “Alessandros” que vivem nas ruas, nos abrigos, orfanatos, cadeias...

Na cena em que Sandro, ainda pequeno, está na balsa em direção ao centro do Rio de Janeiro, em uma fuga da escola para tentar encontrar o local em que o plano de sua falecida mãe de comprar um quiosque aconteceria, derruba os cadernos e livros no mar que são rapidamente engolidos pelas ondas provocadas pela balsa, nota-se uma perda simbólica de uma história que poderia ter sido contada de maneira diferente.

O roteiro (bem escrito, diga-se de passagem) aponta os sinais dos traumas ocasionados pela dura história de vida marcada em Sandro, desde cedo, por dor, morte, ódio e revolta. Os cortes das pontas das facas na casa da tia demonstravam o quanto a facada que a mãe de Sandro levara não penetrou apenas no abdômen dela, mas também impulsionou nele um desejo de cortar de sua vida a possibilidade da repetição daquela cena. O olhar atento a um copo quebrando seguido de um silêncio sepulcral denunciava o medo em presumir que mais uma morte haveria de acontecer, sem certeza. A cicatriz no dedo indicador, aprofundada a cada vez que o ódio emergia de seu interior, mostra ao expectador quão profundo ficava e escondido estava o sonho que outrora fora alimentado por intermediadores que tentaram colaborar com a mudança do rumo de sua história, em tornar-se um rapper.

Quando caminho pelas ruas de São Paulo, especialmente na região central, e vejo os meninos que fazem da rua suas moradas, sinto-me impotente em saber que não tenho em mãos uma pronta solução para suas vidas. Não consigo olhar para eles condenando-os pelos roubos, pelo uso das drogas, pelas mortes que, possivelmente, eles causaram na luta, em alguns momentos, pela própria sobrevivência.


Acolhe-los seria o ideal, mas não o suficiente. O acolhimento, por si só, pressupõe uma ampliação da escuta, da atenção, do cuidado e não somente dar casa, comida e banho. Acolher esses meninos significa construir com eles (e não para eles) a possibilidade de uma nova história, reescrita com o apoio de muitas mãos. Sair da rua não é o suficiente quando, as vezes, eles enxergam na rua pequenos picos de diversão, assim como fala Sandro à mulher da ong que quer tirá-lo das ruas no filme.

Não sei afirmar quantos estão nas ruas porque tiveram o mesmo percurso que Sandro. Não sei afirmar, também, quantos que moram nas ruas tem traumas como os dele, se viram suas mães e/ou pais assassinados ou se se perderam na tentativa de encontrar os sonhos cultivados em outros momentos. Tudo isso são hipóteses e comparativos. Eu só sei que assistencialismo resumido ao dar comida, cama e banho não funciona na reconstrução (ou, as vezes, na própria construção) das vidas estacionadas ali. Pode ser o primeiro passo, mas é necessário acolher, ampliar a escuta, receber com cuidado, oferecer um olhar ou, até mesmo, um abraço. Ajudar a recuperar histórias de vida não é fazer por, mas construir com. Só assim, evitaremos novas paradas, tal como a do filme Parada 174.


Vinícius Nascimento.

2 comentários:

  1. Fala Vinícius, excelente texto, espero que quem assisti esses filmes e não capta essa mensagem, agora através do seu texto compreenda e principalmente comece a agir!!!
    Abração

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  2. Com ou sem filmes desse gênero TUDO continua na mesma. Talvez vendo esses filmes, pelo menos naquelas 2 horas, as pessoas sentam a garganta apertar, mas do que adianta? Depois volta tudo ao normal..como se tudo fosse apenas um filme! ... A mudança tem que partir de nós! às vezes nos sentimos impotentes..Mas só um sorriso pode, não mudar, mas colorir as ruas sem vida! / Muito bom o artigo! Fique com Deus.

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