As produções cinematográficas nacionais que trazem como temática central a violência urbana e o tráfico de drogas sempre despertam em mim o mesmo sentimento: revolta. Sim, os diretores alcançam o objetivo da produção do filme comigo que centra-se na exposição, na publicação (no sentido de tornar público) daquilo que, na verdade, o público já sabe: a dura realidade brasileira impulsionada pela desigualdade social. O roteiro (bem escrito, diga-se de passagem) aponta os sinais dos traumas ocasionados pela dura história de vida marcada em Sandro, desde cedo, por dor, morte, ódio e revolta. Os cortes das pontas das facas na casa da tia demonstravam o quanto a facada que a mãe de Sandro levara não penetrou apenas no abdômen dela, mas também impulsionou nele um desejo de cortar de sua vida a possibilidade da repetição daquela cena. O olhar atento a um copo quebrando seguido de um silêncio sepulcral denunciava o medo em presumir que mais uma morte haveria de acontecer, sem certeza. A cicatriz no dedo indicador, aprofundada a cada vez que o ódio emergia de seu interior, mostra ao expectador quão profundo ficava e escondido estava o sonho que outrora fora alimentado por intermediadores que tentaram colaborar com a mudança do rumo de sua história, em tornar-se um rapper.
Quando caminho pelas ruas de São Paulo, especialmente na região central, e vejo os meninos que fazem da rua suas moradas, sinto-me impotente em saber que não tenho em mãos uma pronta solução para suas vidas. Não consigo olhar para eles condenando-os pelos roubos, pelo uso das drogas, pelas mortes que, possivelmente, eles causaram na luta, em alguns momentos, pela própria sobrevivência.
Não sei afirmar quantos estão nas ruas porque tiveram o mesmo percurso que Sandro. Não sei afirmar, também, quantos que moram nas ruas tem traumas como os dele, se viram suas mães e/ou pais assassinados ou se se perderam na tentativa de encontrar os sonhos cultivados em outros momentos. Tudo isso são hipóteses e comparativos. Eu só sei que assistencialismo resumido ao dar comida, cama e banho não funciona na reconstrução (ou, as vezes, na própria construção) das vidas estacionadas ali. Pode ser o primeiro passo, mas é necessário acolher, ampliar a escuta, receber com cuidado, oferecer um olhar ou, até mesmo, um abraço. Ajudar a recuperar histórias de vida não é fazer por, mas construir com. Só assim, evitaremos novas paradas, tal como a do filme Parada 174.
Fala Vinícius, excelente texto, espero que quem assisti esses filmes e não capta essa mensagem, agora através do seu texto compreenda e principalmente comece a agir!!!
ResponderExcluirAbração
Com ou sem filmes desse gênero TUDO continua na mesma. Talvez vendo esses filmes, pelo menos naquelas 2 horas, as pessoas sentam a garganta apertar, mas do que adianta? Depois volta tudo ao normal..como se tudo fosse apenas um filme! ... A mudança tem que partir de nós! às vezes nos sentimos impotentes..Mas só um sorriso pode, não mudar, mas colorir as ruas sem vida! / Muito bom o artigo! Fique com Deus.
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