domingo, 10 de outubro de 2010

Experiência multilíngüe: interpretação no Chile

Estive no Chile entre os dias 29 de setembro e 3 de outubro para participar do X Congreso Latinoamericano y V Congreso Nacional de Educación Bilíngüe para las personas sordas que aconteceu na cidade de Santiago, na Univerdad Catolica Sylvia Henriquez. Minha participação foi dupla: como intérprete de Libras para os Surdos brasileiros e como expositor de trabalho científico.

Foram dias de intenso trabalho, aprendizado e vivência ímpar! A começar da experiência multilíngüe que vivi nesse congresso. Em contato com Surdos das Américas do Sul e do Norte – Estados Unidos, Chile, Argentina, Peru, Colômbia, Brasil – e de outros lugares do mundo – França e Inglaterra – pude constatar o que já sabia, as línguas de sinais são bem diferentes umas das outras. Parece bobagem afirmar isso quando se conhece a temática com certa profundidade, porém essa experiência me deu subsídios para exemplificar e afirmar para as outras pessoas que fazem a clássica questão: “a língua de sinais é universal?” e dizer com todas as letras: “não, cada país possui a sua língua de sinais”.

Já participei de outros congressos internacionais sobre surdez em que havia intérpretes e surdos de todas as partes do mundo, mas sempre como ouvinte, nunca como intérprete. Dessa vez pude experimentar outra face da tal zona de conflito que costumo falar para os meus alunos na Santa Casa, no curso de pós-graduação em interpretação/ tradução de Língua de Sinais. Transitei de outra maneira nessa zona ao realizar a interpretação direta do espanhol para Libras. Não havia intérpretes de espanhol-português e eu tive que realizar uma interpretação quase transcendental: de duas línguas diferentes uma das outras, sendo que nenhuma delas era a minha língua materna.


Aceitei o desafio de interpretar um congresso internacional fora do Brasil pela experiência que já tive aqui em congressos que havia palestrantes latinoamericanos que fizeram suas exposições em espanhol. Aqui, eu que realizei a interpretação do espanhol para a Libras, porém eram exposições de, no máximo, trinta minutos sendo que de três dias de congresso, apenas uma ou duas participações eram em espanhol e se eu quisesse, ainda poderia recorrer a tradução simultânea através dos fones de ouvindo. Então, o sofrimento era menor.


No Chile foi bem diferente. Primeiro porque a sensação que tivemos (falo em nome dos pouco mais de vinte brasileiros que estavam lá) é que somos discriminados porque falamos português. Não havia intérpretes para o português e dos 35 trabalhos expostos, 18 eram de pesquisadores brasileiros. Eu arrisquei um “portunhol” para apresentar o meu e os outros participantes do Brasil contaram com o apoio voluntário de um intérprete do Chile que já havia vivido no Brasil 3 anos e que conhecia bem o português. Os Surdos brasileiros também, por medo da maioria (que era falante de espanhol) não compreender nossa interpretação para o Português oral, optaram por apresentar seus trabalhos em Língua de Sinais Internacional (LSI) e foram interpretados por uma ILS do Chile que conhecia LSI.


As conferências, perguntas e discussões eram todas em espanhol e eu e a outra intérprete do Brasil, Amanda Assis, nos empenhávamos o máximo para interpretar para a Libras. Confesso que na manhã do primeiro dia o sofrimento foi maior, mas depois de quatro horas ininterruptas ouvindo espanhol e interpretando tornamo-nos quase “falantes da língua” e depois do almoço estávamos mais confortáveis para atuar. Os Surdos brasileiros também perceberam isso e nos deram um feedback positivo de que estavam compreendendo tudo. Comprovamos isso quando eles se levantaram para fazer perguntas relacionadas às temáticas apresentadas e elogiados pelas observações feitas aos palestrantes.


O congresso apresentou as perspectivas atuais de trabalho com pessoas surdas em abordagensbilíngües realizado nas Américas. Temas como literatura, cultura, identidade e comunidade Surda, letramento (s), ensino de segunda língua, tecnologias que colaboram para o aprendizado, sistemas inclusivos de Surdos em escolas regulares, atuação fonoaudiológica na perspectiva bilíngüe, interpretação da língua de sinais, adaptações lingüísticas para a inclusão de Surdos e ensino de línguas de sinais para surdos e ouvintes foram alguns dos temas abordados no congresso. O Brasil foi muito bem representado com a presença massiva de pesquisadores e uma quantidade considerável de trabalhos apresentados.


Esse tipo de experiência amplia nossos horizontes não só no que tange ao aspecto interpretativo ou acadêmico e científico, mas enriquece nosso conhecimento de mundo a respeito da diversidade humana e da possibilidade do humano em comunicar-se. Nesse congresso tive a oportunidade de falar português, espanhol, “portunhol”, inglês, “espan-english”, “portu-inglês”, Libras, American Sign Language (ASL), Língua de Sinais Internacional (LSI), Lengua de Señas Chilena (LSCH), Lengua de Señas Argentina (LSA)... Tudo para suprir a enorme necessidade de interagir com o outro e compartilhar conhecimento, experiência, histórias...


Retornei com uma ampla bagagem lingüística e cultural e afirmo que esses quatro dias que estive no Chile cresci como intérprete, fonoaudiólogo, pesquisador, mestrando, militante na causa surda e, principalmente, como ser humano.


Agradeço, especialmente, a Profa. Dra. Maria Cecília de Moura por acreditar em mim e me encorajar constantemente a apresentar nossos trabalhos pelo mundo afora (China, 2011, ai vamos nós!). E ao Instituto Mara Gabrilli – IMG – (http://www.img.org.br/) por ter patrocinado minha ida ao Chile com as passagens aéreas e por acreditar que uma inclusão é possível quando pessoas estão disponíveis para que ela aconteça.


Vinícius Nascimento, com um coração imensamente grato.

5 comentários:

  1. Maravilhosa experiencia.. e artigo tb... me incentivou muito a comecar a escrever tb.
    ha brassos.
    Eduardo Ruas

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Parabéns Vínicius, realmente, seu artigo é motivador. Os anos vão passando e esse espírito aventureiro vai se aquietando... Congratulaciones, muchacho. Dios bendiga tu trabajo, tus estudios y tu vida!

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  4. Vini, vc tá mto chique... q orgulho q me deu de vc... maravilhoso... de coração, meus parabéns, vc merece td de bom... bjs Andreia de Almeida

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  5. Parabéns pela bela experiência e pelo sucesso!!! Grande abraço da Raquel - sur10

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