quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Olhares de (in)diferença

Em uma caminhada de verificação nas ruas da cidade de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, com a vereadora de São Paulo Mara Gabrilli e alguns amigos cadeirantes, pude constatar que em meio a indiferença governamental em relação a acessibilidade das vias públicas para pessoas com deficiência, nota-se que o que circula pelas calçadas não são somente os cidadãos que transitam pela metrópole em pé, mas também o olhar da (in)diferença, ou da diferença que (in)comoda, ou ainda, do incomodo que é causado pela presença da diferença.

O olhar de surpresa foi o mais perceptível. Tão notório que aqueles que miravam para nós, enquanto grupo naquele momento, e percebiam que de nós transparecia não a indiferença, mas a indignação pelo fato de um cadeirante não poder ser “transeunte” em uma cidade como aquela, ficavam minimamente constrangidos ao deparar-se com pessoas comuns, “caminhando” sentadas em vias construídas para pessoas que caminham, apenas, a pé.

Em uma época que se fala tanto em acesso, inclusão social (inclusive, slogan do governo atual de São Bernardo) e universalidade vimos o contrário e constatamos a indiferença daqueles que colocamos nos lugares de governo. E mesmo em meio a essa “macro” indiferença, é perceptível o incomodo da população ao deparar-se com aquilo (ou aquele) que é diferente. Não quero limitar-me em dizer, somente, em relação àqueles que “caminham” sobre rodas, sentados, os cadeirantes, mas para toda a variação que o termo “diferença” incorpora ao ser dito.

Enquanto atuante na causa de um grupo minoritário e “diferente”, os Surdos, percebo que muito ainda precisa ser feito, para que TODAS as diferenças se diluam em meio àquilo que considera-se “normal”, para que o “normal” seja ser diferente, seja ser cadeirante, cego, vidente, surdo, ouvinte...

Um mundo sem (in)diferenças se constrói a partir de olhares que reconhecem no outro a igualdade...

Grande abraço.

Vinícius Nascimento

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Sabe o que eu acho engraçado é que se fala mto das dificuldades dos surdos, mas já pararam pra pensar na dificuldade daqueles que estão perdendo a audição? Seus medos quanto ao futuro? O preconceito e a falta de compreensao que sentem? É lógico que os que nascem surdos sofrem maior dificuldade isso já é provado, mas no ambito psicologico os pós-linguisticos sofrem mais, já imaginou vc passar a vida ouvindo e derrepente sem avisar vc começa a perder a audiçao? é terrivel é viver em dois mundos e nao saber exatamente o qual pertencer sem contar o sentimento de nao poder ouvir,compreender as pessoas vai ficando cda vez mais dificil... Eu sou um exemplo disso!

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  3. Olá Joosi...
    Como fonoaudiólogo já acompanhei casos de pessoas que perdem audição como decorrer do tempo, assim como você. Quando falamos em inclusão e acessibilidade falamos disso para todos, sejam surdos congênitos ou pessoas que perdem audição com o decorrer da idade. Acredito que você tem toda a razão ao fazer essas colocações, porém há serviços de amparo a pessoas com deficiência auditiva adquirida do próprio SUS, como o NISA (Núcleo Integrado de Saúde Auditva) na cidade de São Paulo. Acredito que sua demanda é importante e deve ser ouvida, escreverei sobre isso também.
    Grande abraço e obrigado pelo comentário...

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  4. É lamentavel que vivemos em um país com a cultura de preconceitos, pois é lidos nos relatos dos livros "1808" e "1822" que recomendo ler com bons olhos, onde a sociedade considera que a minoria "não é adequada socialmente", ou seja, foge dos padrões de normalidade é simplesmente excluída.
    Acredito que com o engajamento de todas as pessoas, que pertencem a essa minoria excluída, na luta por direitos de viver dignamente, seja na vida profissional, afetiva, social, esportiva, etc, sem falar dos profissionais que amam estar ao lado dessas pessoas (acho fantástico!), com certeza, seja lá Deus quiser, conseguirão vislumbrar uma sociedade mais humana e justa. A união faz a força! Eu estou nessa!

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