As eleições 2010 estão chegando e todos nós enquanto cidadãos exerceremos nossa cidadania através do voto escolhendo aqueles que nos representarão politicamente no Congresso, Senado e Palácio da Alvorada. Devemos atentar-nos às propostas dos candidatos e avaliar se suas condutas éticas e políticas condizem com o importante lugar que ocuparão nos próximos quatro anos. Todos os cidadãos devem ter consciência e votar com a certeza de que estão fazendo a escolha certa.
Todos? Será que todos farão a escolha certa? E como é possível se fazer uma escolha certa se as propostas não são acessíveis a todos?
Pois é, fácil é falar que todos os cidadãos devem votar, o difícil é possibilitar o real acesso da população com deficiência às informações e propostas dos candidatos.
Não precisamos citar exemplos de eleições passadas, basta assistirmos as campanhas políticas que, mal começaram, e já excluem a população de mais de 5,7 milhões de surdos e deficientes auditivos. Isso porque estamos vivendo a década da inclusão!
Você deve estar se perguntando: “mas não existem legendas nas propagandas?”. Sim existem, mas eu pergunto a você que, se for ouvinte e alfabetizado em língua portuguesa, saberá me responder sem muitos devaneios: é possível ler com tranqüilidade tais legendas e entender as informações ali processadas? Eu também não consigo.
Então, quero propor uma reflexão. Pense que existem mais de 5 milhões de surdos e deficientes auditivos nesse país de proporções continentais. Desses 5 milhões, hipotetizo que 70% se comuniquem através da Libras (Língua Brasileira de Sinais) e não conhecem a língua portuguesa escrita o suficiente para ler as legendas (esses 70% é uma hipótese, como frisei acima, pois o último senso não classificou os surdos profundos, usuários de Libras ou aqueles que sabem ou não ler e escrever em português, apenas delimitou o número de brasileiros que possuem algum problema auditivo). Sendo assim, como podemos afirmar que TODOS os cidadãos brasileiros votarão conscientemente em seus candidatos conhecendo suas propostas e exercerão plenamente sua cidadania?
Como é possível exercer cidadania através do voto se o ser cidadão através do acesso a informações importantes, tal como é das eleições, é negado? Lutamos por um país inclusivo fechando escolas especiais de educação para Surdos e incluindo-os em salas de aulas regulares com professores despreparados e estruturas inadequadas em nome do “respeito” às diferenças tendo a certeza que esse “respeito” nascerá à força bruta, mas negamos ao surdo a inclusão à informação e o direito de compreender as propostas dos atuais candidatos?
Criamos decretos, leis, portarias, ementas, etc. que garantem a acessibilidade em sistemas de comunicação como a televisão, por exemplo, mas deixamos de fiscalizar se aqueles que serão os responsáveis por escrever, votar e aprovar as leis, decretos, portarias e ementas estão realmente cumprindo-as.
As legendas que os candidatos usam nas propagandas partidárias são incompreensíveis. Letras pequenas em fundos quase invisíveis e transparentes que não dá pra “sacar” informação alguma. Na maioria dos casos fogem das normas estabelecidas pela ABNT e tornam a compreensão muito difícil.
O acesso de surdos e deficientes auditivos às campanhas políticas seria real se houvesse intérpretes de Libras em tamanho ideal, dentro dos padrões da norma de acessibilidade na televisão (NBR 15.290) estabelecida pela ABNT. Acesso real com respeito a população surda do Brasil. E ainda, podemos pensar em uma propaganda política mais acessível ainda se houvesse, além do Intérprete de Libras, as legendas com letra legível para os deficientes auditivos que não se comunicam em Libras, mas entendem muito bem a língua portuguesa escrita.
Que possamos refletir sobre o exercício da cidadania que está para além do ato de votar. Participar das eleições com o voto é uma atitude cidadã democrática, mas impedir o acesso a qualquer tipo de informação é roubar o direito de ser cidadão.
Reflita!
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